quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Fashawn: Boy Meets World

Ano: 2009
Gravadora: One Records
Produtor: Exile (todas as faixas)
Participações: Aloe Blacc (faixas 3 e 4), DeVoya Mayo (3), J. Mitchell (5), Evidence (7), Blu (9), Co$$ (11), Mistah F.A.B. (11), Exile (12).

Acho que o blog nunca ficou tanto tempo sem atualizações como nas últimas semanas. Culpem a faculdade, o trabalho e o feriado pelo fenômeno. É que, no auge dos meus 21 anos, um turbilhão de coisas acontece ao mesmo tempo. É uma fase meio que crucial para a transição de um jovem vagabundo para alguém com responsabilidades. É tipo o momento em que o menino encontra o mundo. Sim, eu usei minhas desculpas costumeiras e esfarrapadas para introduzi-los a "Boy Meets World", o disco de estreia do Fashawn, um jovem emcee californiano, de apenas 20 anos. O projeto foi todo produzido pelo Exile, que já virou craque em fornecer beats para moleques da costa oeste criarem clássicos.

Ops, eu disse clássico? Pois é. Mas é preciso fazer uma ressalva: "Boy Meets World" é um clássico contemporâneo, longe dos trabalhos hors-concours da golden age norte-americana. Em suma, é um discaço, mas para os padrões atuais. Não bastasse os instrumentais impecáveis de Exile, Fashawn é um rapper bastante talentoso e dinâmico. A fórmula para o álbum é um pouco parecida com a utilizada por Blu no igualmente clássico pós-era de ouro e igualmente beats-cortesia-de-Exile "Below The Heavens": rimas bastante pessoais, capazes de fazer o jovem comum se identificar facilmente.

Bom, esqueçamos Blu de lado, porque as comparações com John Barnes, embora meio que inevitáveis, já se tornaram repetitivas. Fashawn tem todas as características para fazer seu nome sem estar à sombra de ninguém: carisma, bom flow, letras com temas diversos e ótimo ouvido para beats. E, acima de tudo, sinceridade. É bastante elogiável como ele planejou seu disco todo em torno do conceito do jovem que vira adulto, do moleque que sai dos tempos de escola e precisa trabalhar, a hora da verdade, que separa os homens dos meninos. E "Boy Meets World" é um testamento dessa fase. Mais do que isso: é um manifesto para todos que estão passando atualmente por isso, ou mesmo os que já passaram. É claro, com todas as particularidades inerentes a um jovem vindo da classe baixa.

"Life as a shorty", o primeiro single, reflete bem esta ideia. Embora o título seja uma homenagem à clássica linha de Inspectah Deck em "C.R.E.A.M.", não há o previsível sample do Rebel INS. Em vez disso, um refrão cantado por J. Mitchell e rimas autobiográficas por parte de Fashawn, que mostra sua sinceridade: admite que seu primeiro amor o traía, diz que teve um monte de "pais" durante a infância, revela que seus amigos não se interessavam "por literatura, não eram bons ouvintes e não prestavam atenção, por isso andavam comigo". Mas não é só lamentação. As últimas palavras do moleque mostram outro ponto de vista: "Eu amei minha infância, apesar dos tiros / eu era bastante feliz crescendo na favela / não foi tão ruim, tive alguns pais / a única que eu não gostei foi não ter dinheiro".

Essa capacidade de relatar as desventuras dos garotos encontrando o mundo não fica só nas dificuldades. "Lupita" é uma faixa com toque latino em homenagem à menina que batiza a canção. "Samsonite Man" junta Fashawn a Blu para ambos trocarem impressões sobre suas viagens e discutir como é ficar fora de casa por tanto tempo quando se leva a vida de shows, gravações e encontros de um rapper. "Bo Jackson" traz Exile no microfone, com tanto produtor quanto emcee trocando versos de forma descontraída sobre um beat igualmente leve. "Sunny CA" é o hino à área de Fashawn, junto com os conterrâneos Coss e Mistah Fab.

Mas é quando o jovem emcee toca em aspectos mais sérios que sua estrela brilha mais. E o melhor de tudo é que o conteúdo equilibra-se de forma satisfatória com a forma. "Freedom" é um bom exemplo: não bastasse o sample de Talib Kweli no refrão, Fashawn transborda habilidade lírica nos versos, o primeiro sendo uma aula de como abusar de rimas internas e multissilábicas sem prejudicar a mensagem. "Hey Young World" é a faixa mais jazzy do álbum, quase que um resumo do conceito do álbum. O poder de "Why", seus strings melancólicos e o sample vocal ainda mais doce é resumido em uma das primeiras frases de Fashawn: "É hora de pararmos de sermos baby daddys (nota: uma gíria para pais ausentes) para sermos pais de verdade". E não esqueça a potentíssima "Boy Meets World", uma biografia mais completa do emcee.

Depois de três parágrafos longos falando sobre as proezas de Fashawn, é justo dedicar pelo menos um para o arquiteto do disco. O trabalho de Exile no álbum mostra o beatmaker ainda masi impecáveis no soul-hop tão característico dele, mas já aponta novos horizontes no trabalho do californiano. O violão latino de "Lupita" é uma das pistas que ele deixa, assim como a sombria "When She Calls", que encaixa perfeitamente no clima do storytelling de Fashawn. Aliás, o entrosamento entre emcee e produtor é evidente. Faixas como "Boy Meets World" e "Stars" mostram como Fashawn fica confortável e sabe interagir sobre os beats de Exile.

As coincidências com "Below The Heavens" são muitas: mesmo produtor, estética parecida, emcee jovem rimando sobre sua vida. Mas Fashawn mostra que não é uma cópia de Blu, e sim um artista com todas as condições para estar na linha de frente do Hip-Hop nos próximos anos. O mais interessante é que o moleque não se destaca só pelas letras, ou pelos beats: as canções, como um todo, têm qualidade, o que é bem mais difícil de se conseguir do que apenas rimas complexas ou beats matadores. Talvez o denominador comum entre os dois álbuns esteja numa simples palavra: clássico. Contemporâneo, mas ainda assim um clássico. E fortíssimo candidato a melhor disco do ano.

Fashawn - Boy Meets World
01 Intro
02 Freedom
03 Hey Young World
04 Stars
05 Life As a Shorty
06 The Ecology
07 Our Way
08 Why
09 Samsonite Man
10 Father
11 Sunny CA
12 Bo Jackson
13 Lupita
14 When She Calls
15 Boy Meets World

Vídeo de "Life As A Shorty":

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Sene & Blu: A Day Late & A Dollar Short

Ano: 2009
Gravadora: Shaman Works
Produtor: GODlee Barnes.
Participação: Co$ (faixa 12).

Quando Blu explodiu em 2007 com seu álbum de estreia "Below The Heavens", muitos trataram o moleque como uma das grandes promessas do rap para os anos subsequentes. Poucos imaginavam que o cara iria corresponder tanto às expectativas. Depois da sua estreia, ele esteve presente em outros dois álbuns e manteve a qualidade. Não satisfeito, John Barnes resolveu começar a produzir seus próprios beats. Lançou uma mixtape, duas beat tapes e encontrou no nativo do Brooklyn Sene o companheiro ideal para sua primeira aventura a sério. O resultado disso é "A Day Late & A Dollar Short", primeiro disco de Sene e do produtor GODlee Barnes, a alcunha adotada para a versão beatmaker de Blu.

O projeto, coincidência ou não, lembra bastante a estreia de Blu em vários aspectos. O primeiro é o formato: tal qual os clássicos produzidos nos anos 90, a divisão de tarefas é clara. Um emcee rimando, com eventuais mas raros convidados, e um produtor...produzindo. Simples, rasteiro e eficiente. Longe das tracklists com os beatmakers mais quentes do momento e uma coleção de rappers convidados que fazem discos parecerem um guia "Quem é Quem" para novatos do rap. Afastado desta orgia rapeira, "A Day Late..." dá o espaço ideal para GODlee Barnes pôr seus talentos à prova. A pressão, por outro lado, é grande: será que o moleque que impressionou a todos rimando poderia fazer isso desta vez com MPCs?

A resposta é sim. Blu tem uma estética bem própria e consegue transferir isso para o disco. A timbragem é suja, as caixas têm um feeling old school, embora não sejam necessariamente pesadas. Os samples são oriundos principalmente do jazz, mesmo que o álbum tenha saído bem menos jazzy do que se supunha depois de ouvir os primeiros beats de Blu. Ainda assim, o maior mérito do cara é ter mesclado consistência e variedade de forma satisfatória, de forma a conseguir manter o nível de qualidade durante toda a audição do álbum. No fim das contas, espere pianos à vontade, teclados, vocais femininos passeando ao fundo e um climão tranquilo permeando todo o trabalho.

Sene, por sua vez, responde aos vários outros aspectos que remetem "A Day Late..." a "Below The Heavens". À parte o flow e a voz parecidos, o moleque - outra semelhança com o Blu de dois anos atrás - toca basicamente nos mesmos temas. A aposta, embora não tão confiante e proeminente, é em relatos pessoais capazes de fazer qualquer um entre 18 e 30 anos se identificar. Um exemplo é o single "QuarterWaterSupporter", uma viagem nostálgica até o Brooklyn da infância do emcee, rememorando todas aquelas situações que nós guardamos com carinho da nossa criação.

A performance de Sene, num geral, é satisfatória. Excetuando alguns refrãos irritantes e eventuais "desaparecimentos" perante o microfone, o moleque mostra que é excelente tecnicamente. No leque de temas dos quais ele trata, destacam-se o excelente conceito de "EveryDejaVu", outra vez um golpe certeiro no jovem comum das cidades: as rimas falam das rotinas repetitivas e de como as coisas passam rápido; "WonLover", um jogo de palavras no melhor estilo "I Used to Love H.E.R."; e "Ain't No Justice", cuja argumentação do título se dá através de um storytelling bem executado. Entretanto, nem tudo é sério. O loop de um piano despreocupado em "WhyBother?" dá a sugestão do conteúdo dos versos. Falando em sugestão, "JusASuggestion" fecha o disco de maneira espetacular. Na possivelmente melhor faixa do álbum, tudo funciona à perfeição: a bateria quebrada, os samples vocais ocasionais, a guitarra cortada, o teclado...A mensagem, cheia de motivação, também é ótima.

No geral, "A Day Late & A Dollar Short" é um álbum que atinge o seu limite. Blu faz um bom trabalho como produtor e, se continuar a se desenvolver, pode equiparar seus dotes de beatmaker aos de emcee num já aguardadíssimo disco solo. Sene, por sua vez, faz o que é possível, mas escorrega em altos e baixos naturais para uma estreia. Pesa contra ele a comparação com o seu agora produtor, mas às vezes fica a sensação de que ele mesmo tomou este caminho.

Sene & Blu - A Day Late & A Dollar Short
01. PressPause
02. WonLover
03. QuarterWaterSupporter
04. WhyBother?
05. WonThousandGirls
06. SmokeRosebudsOnAshyAvenue
07. TheWonderers
08. CloudClimbers
09. EyeCry - TheBefore
10. OwlThruGotham
11. EveryDejaVu
12. Ain'tNoJustice
13. EyesDry - TheAfter
14. JusASuggestion

Vídeo de "WonLover":

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Neto Beats: NetoMix Vol. 2

E mais um participante do Concurso Boom Bap de Beats chega com trabalho na área. O Neto tem 15 anos, é de São Paulo e também foi finalista na peleja que escolheu um beat para o Ogi e foi vencida pelo DJ Zala. Esta é a segunda compilação de remixes que o moleque lança e já tá pela internet há pelo menos um mês, mas só agora esse infame blogueiro coloca o trabalho aqui no Boom Bap. Falando em blog, o Neto também tem um site, o OutroMundo, que vocês podem acessar clicando aqui. Lá também tem resenhas, entrevistas com nomes do rap nacional, etc.

Voltando para a coletânea, este volume foi lançado alguns meses depois da primeira experiência do beatmaker e, como ele mesmo disse no blog, tem um material melhor selecionado, ao contrário do primeiro, que foi simplesmente a coleção de remixes dele. O projeto incluem faixas bem conhecidas, como "It Ain't Hard to Tell", do Nas, e "Dead Wrong", do The Notorious B.I.G. Esperem ainda revisitas a nomes como Ogi, Elo da Corrente, Mobb Deep e Jay-Z, entre outros.

Enquanto o Diego 157, no post anterior, buscou sonoridades mais brasileiras, o Neto enveredou para o caminho do jazz. São vários pianos sampleados e caixas sujas. O mais legal é ver que, ainda adolescente, o menino continua aprendendo e tem tudo para, mantendo o interesse e o desenvolvimento, ser uma das boas fontes de beats do Brasil nos próximos anos. Fiquemos de olho.

Neto Beats: NetoMix Vol. 2
01 - Ralph, Rael & Jordan - Ruge Leão
02 - Jay-Z - Threat
03 - Nas - It Ain't Hard To Tell
04 - Mobb Deep - Hell On Earth
05 - Murs - 3.16
06 - OGI - Por Aí Vou Vagar
07 - Afu-Ra - Defeat
08 - Notorious B.I.G. - Dead Wrong
09 - Elo Da Corrente - Ei
10 - AXL - Uma Lágrima

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terça-feira, 20 de outubro de 2009

Diego 157: Originais e Remixadas Vol. I

Diego 157 foi outro finalista do Concurso Boom Bap de Beats, mas é bem mais que isso. O cara é um dos bons nomes do rap baiano, tanto como emcee no grupo 157 Nervoso quanto como beatmaker. O novo trabalho de Diego é a mixtape "Originais e Remixadas Vol. I", na qual ele remixa alguns clássicos do rap, além de faixas nacionais. O resultado é um tempero brasileiro em canções como "The Light", do Common, e "Letter 2 My Unborn", do 2Pac. Não bastasse isso, expoentes da nova safra tupiniquim têm seus trabalhos visitados pelo produtor baiano, como Ogi, Emicida e Cabes.

O projeto serve até como uma ferramenta para "educar" novos fãs do rap. É que Diego, antes de apresentar sua versão, solta a original. Outro ponto legal e digno de nota é a quantidade de artistas nacionais remixados, algo que não é muito comum por aqui. Das 12 faixas do trabalho, oito são made in Brazil. Mas, em meio a percussões brasileiras e samples tranquilos, é a voz infantil apresentando a mixtape do pai logo no início a parte mais emblemática da parada. E foi só o início, o prelúdio para a criatividade que transbordaria até o último segundo da audição. Enfim, fiquem com os remixes de Diego 157.

Diego 157 - Originais e Remixadas Vol. I
1.Common – The Light
2.Ogi – Por aí vou vagar
3.2pac – Letter 2 My Unborn
4.Inumanos – Monstros Lapa
5.Inspectah Deck – R.E.C Room
6.AXL – Uma Lágrima
7.Daganja – Vai Buscar
8.Inquilinus – Regras e Critérios
9.Elo da Corrente – Ei
10.Emicida – Triunfo
11.Krs One – Fucked Up
12.Cabes – Diga Sim

Download

Contatos:
http://www.twitter.com/diego_157 (Twitter)
http://www.mauselementos.blogspot.com (BlØg)
http://www.myspace.com/classeabeats (Beats)
http://www.myspace.com/157nervoso (GrupØ)
http://www.myspace.com/diegocbx (SØlØ)

sábado, 17 de outubro de 2009

Entrevista: DJ Zala

O atraso desta vez é de alguns meses, mas tudo bem. O DJ Zala, para quem não se lembra, foi o vencedor do Concurso Boom Bap de Beats, e ganhou o direito de ter seu beat rimado pelo Ogi no disco que o emcee está preparando para 2010, "Crônicas da Cidade Cinza". Como parte do prêmio, o ganhador também seria entrevistado pelo blog. Acontece que esta entrevista não para por aí. Jefferson Lemes do Nascimento, 27 anos, cria do Tucuruvi, é também o organizador da Liga dos Beats, que vai acontecer hoje em São Paulo - mais informações no Per Raps.

Boom Bap: Como você se envolveu com o rap?
DJ Zala: Acho que em 2003 ou 2004, quando, pra fazer oficina de DJ, comecei a frequentar a casa de Hip-Hop de Diadema. Lá, eu aprendi muito, sou eternamente agradecido àquele lugar. Tive oportunidade de a assistir grandes shows e também de ajudar a organizar algumas festas.

Antes você só curtia as músicas, sem produzir nada, certo?
Não, além de ouvir rap eu fui pichador e depois fiz grafitti por uns dois ou três anos, e a trilha sonora desse tempo foi muito rap, principalmente rap nacional, mas eu sempre tive vontade de fazer rap.

Chegou a tentar escrever algumas rimas ou sempre se interessou pela produção?
Eu sempre me interessei por produção. Com uns 15 anos, eu comecei a trabalhar em um jornal, e eu lia três jornais por dia, dois de São Paulo e um do Rio, e era uma época em que escreviam muito sobre lançamento de discos e falavam muito sobre a cultura do sample. Polemizavam sobre a questão de direitos autorais . Lembro do caso da música "Contexto", do Planet Hemp, em que usaram sample da música "Mentira", do Marcos Valle, deu uma polêmica na época, lembro que corri atrás das músicas pra conhecer o tal ''sample''. Foi o primeiro original e sampleado que conheci...Isso acho que 1998. Quando ouvi, eu chapei. Tinha um amigo colecionador de discos que trabalhava lá, ele me mostrou a música "Mentira" e eu mostrei a "Contexto".

Você coleciona vinis? Tem noção de quantos discos tem atualmente?
Coleciono sim, estou menos viciado, mas continuo comprando discos. Acho que tenho uns mil discos. Eu trabalhei durante um tempo no sebo do Messias. Ali era impossível não pegar nada.

Já chegou a produzir algum grupo ou emcee?
Eu comecei mesmo a fazer beat há uns três anos. Eu sempre tentei fazer, primeiro no Sound Forge, depois no Acid e Logic, mas perdi tudo quando meu PC queimou. Depois disso fiquei um tempo parado, porque isso acabou tirando um pouco da minha energia. Tenho a honra de estrear com o Ogi.

Então você nunca teve grupo?
Sim, eu fui DJ do Emicida. Formamos a Na Humilde Crew, que eram eu, Emicida, Rachid, Projota, DJ MrBrown, DJ Nyack, o Enio, Djose, Marcelo. A prefeitura até nos financiou no projeto "Mais Clássicos Hip-Hop"...

E como foi esse projeto?
Foi um projeto que aconteceu em 2008, em que eu tive o maior prazer em produzir. Aconteceu quase todo na Zona Norte, organizamos oficinas de Dj, MC, Produção Musical, Beat Box e também uns 12 shows.

Falando do concurso do Boom Bap que você venceu, de onde surgiu a ideia daquele beat? O que você procurou passar com ele? Quais foram suas inspirações e referências? Primeiro, eu ouvi o sample lá na disco 7, chapei, levei pra casa, acho que durante um churrasco em casa eu mostrei pra uns MCs, que disseram: "Nossa faz que esse vai ser o single''. Fui fazer, tentando manter o groove do sample, tentando manter o peso. Quando mostrei pros caras eles disseram a mesmo coisa: ''Ficou foda, mas esse beat aí é pro KRS-ONE rimar, mano''. Respeitei a opinião dos caras.

Então você já tinha o beat antes mesmo do concurso?
Já tinha...

E o que você achava que tinha no beat que casava com o Ogi?
Estava entre dois beats pra inscrever no concurso, mas o nome do disco me ajudou a escolher esse beat. ''Crônicas da Cidade Cinza''... São Paulo é uma cidade tensa, acho que essa música tem um pouco disso.

Muitos reclamaram, falando que o sample já tinha sido utilizado anteriormente. Como você vê isso? Não vejo problema. Desde que seja feito de forma diferente, tá valendo.

Picote, loop, instrumentação. O que você prefere ou acha que casa melhor contigo? Por quê?
Eu trabalho mais com loop e picote, mas sempre acrescento algum elemento, seja tocando um instrumento ou um filtro.

Como você vê a cena de beatmaking aqui no Brasil? Quais os nomes que você mais gosta?
Acho que esta mais fácil começar a fazer, porque está mais fácil o acesso a um computador, aos softwares e ao conhecimento musical. Isso ajudou a difundir a parada. Acho que tem muita gente talentosa e dedicada. Sem ordem de preferência, admiro o trabalho do Dario, DJ Nato, Munhoz, Nave, DJ Zegon, Ganjaman, Marechal, Apolo, Caíque, Slim, DJ Marlboro, Mano Brown.

O que você acha que falta para que os beatmakers brasileiros possam começar a viver de seus beats? São poucos artistas do hip-hop que vivem bem de sua arte, com o beatmaker não é diferente. Alguns beatmakers conseguem negociar seus trabalhos no exterior, acho que essa é a boa - se conectar e vender para os gringos.

Quais são suas principais referências de produtores? O que você pegou de cada um para formar seu estilo? Eu gosto dos samples de vozes usados por RZA, das linhas de baixo do DJ Premier, Pete Rock, e da bateria de J.Dilla. Da simplicidade do Dr. Dre. Acho que Illmind e 9th Wonder bebem dessas fontes.

Como você aprendeu a produzir?
Eu estou aprendendo, mas o que ajuda muito é a troca de idéias com outros beatmakers, aprender a tocar um instrumento, aprender o inglês, ouvir originais e sampleados e transpiração.

Você disse que coleciona vinis. Qual a importância que você acha que uma boa coleção tem para um produtor? Para você, há uma vantagem entre samplear do vinil e samplear de um MP3? Acho que, independente de sua coleção estar numa estante ou num HD, pesquisa musical tem que ser essencial para o beatmaker. Acho que a grande vantagem do MP3 é o acesso. Vinil é fetiche e as vezes é caro, mas a música que sai do vinil é mais quente, é mais pesada, sem falar na arte da capa e as informações da contracapa. Mas, até ter o dinheiro para comprar, vai escutando o MP3 mesmo - e rezando pra não dar um pau no HD.

Como é o seu processo de produção de um beat?
Primeiro pesquiso os samplers, escuto, entendo, loopo e edito direto no Sound Forge 8. Passo para a MPC 1000, seleciono e experimento os timbres, gravo e finalizo no Nuendo 3.

Você toca algum instrumento?
Faço scratch.

Quais são seus próximos projetos?
Mixtapes. Estou organizando também a Liga dos Beats que será dia 17/10, no Centro Cultural da Juventude e em breve tem o Festival Hip-Hop e Cinema de São Paulo.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Doncesão: Cara de Palhaço

Com três dias de atraso, mas nunca falhando, o Boom Bap traz aqui o single do Doncesão, chamado "Cara de Palhaço", que vai estar no segundo disco do integrante da 360 Graus Records, previsto para sair no ano que vem. O trabalho vai se chamar "Bem Vindo ao Circo".

E se você acha que Cesão está vindo num estilo comediante, vai se surpreender enormemente. A ideia do álbum é traçar paralelos entre o circo e o cotidiano da cidade, algo já recorrente - volta e meia alguma manifestação tem seus participantes com narizes de palhaço. Também pudera, o circo está constantemente presente nas nossas vidas, embora, na maioria das vezes, no sentido figurado. Somos feitos de palhaços nas conduções públicas, pelos patrões, nos relacionamentos, nas amizades, no jogo. Até o rap recebe tal tratamento de vez em quando - e não é raro aparecer algum clown na cena.

E é com tudo isso em mente que surge "Cara de Palhaço". Com uma levada agressiva e rimas celebrando a sua volta e atacando inimigos, Cesão manda um recado claro: ele não está para brincadeira e retorna aos palcos ainda melhor. Tudo isso sobre mais um beat viciante de DJ Caíque, simples mas bastante efetivo - tal qual "Premonição" do Ogi, o loop vai ficar grudado na cabeça dos ouvintes. Menção honrosa também para a mudança de instrumental no meio da faixa, inesperada e original.

Na verdade, o single nem brinca muito com as analogias entre o circo e a cidade; é mais uma carta de apresentação, uma verdadeira prévia do que vai vir. A julgar por este primeiro teaser, a expectativa só pode ser a mais alta possível. "Bem Vindo ao Circo" tem tudo para ser mais um dos ótimos lançamentos que o pessoal da 360 Graus Records está preparando para 2010. Aguardemos.

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sábado, 10 de outubro de 2009

BK-One: Rádio do Canibal

Ano: 2009
Gravadora: Rhymesayers
Produtores: BK-One e Benzilla (todas as faixas)
Participações: Slug (faixas 1 e 10), Brother Ali (1, 6 e 18), Haiku D'Etat (2), Raekwon (5), I Self Divine (5 e 17), Phonte (6), The Grouch (6), The Hypnotic Brass Ensemble (7), Black Thought (9), P.O.S. (11), Toki Wright (12), Aby Wolf (13), Blueprint (15), Murs (16) e Scarface (18).

Chegando já aos seus trinta anos, o Hip-Hop parece estar se deparando com um problema. Com seus instrumentais confeccionados basicamente a partir de samples, o que acontece quando as fontes começam a ser exaustivamente exploradas e aqueles artistas mais conhecidos já tiveram seus catálogos sampleados? Madlib foi à Índia em busca de novas sonoridades, o irmão caçula Oh No recorreu à Etiópia. Já o DJ BK-One, conhecido por trabalhar com Brother Ali, veio numa fonte conhecida por nós, mas que mesmo assim nunca foi tão utilizada, mesmo pelos produtores nativos: o Brasil. Em "Rádio do Canibal", o cara, com a ajuda do beatmaker Benzilla, percorre os diferentes ritmos tupiniquins para criar batidas originais e alternativas às estéticas já conhecidas dos norte-americanos.

E parece que não foi só a música brasileira que influenciou BK. O nome do álbum foi inspirado por um texto de Carlos Drummond de Andrade, "Manifesto do Canibal", no qual ele explicava como a cultura nacional tinha sua força justamente na mistura de diversas influências. Essa característica ficaria marcada mais tarde com a Tropicália, outro movimento que teve grande impacto no conceito de "Rádio do Canibal". Os depoimentos de alguns dos grandes nomes dessa fase, como Caetano Veloso, Hyldon e Tom Zé, ilustram isso.

Mas, como saiu esta mistura entre o hip-hop norte-americano e o suíngue brasileiro? O que fica claro logo no começo é que trata-se do rap se apropriando dos samples tupiniquins para alcançar novas diversidades, e não uma troca de informações entre os gêneros. Em outras palavras, a hierarquia é clara: a música brasileira servindo como matéria-prima para as batidas de BK-One e Benzilla. Em outras palavras, o retorno: uma reprodução, em forma de música, da ordem econômica do mundo: o Brasil exportando o que tem de melhor para as potências, quando poderia ter explorado melhor estas qualidades internamente.

Não encare, porém, o parágrafo acima como crítica, até porque o resultado desta apropriação é muito bom. A impressão é que o soul brasileiro contribuiu bem mais para os instrumentais, talvez por ser mais fácil de ser manipulado. Sendo assim, dá-lhe linhas de baixo cabulosas capazes de ora transportar o ouvinte diretamente para uma praia paradisíaca na Bahia, ora fazer as mundialmente conhecidas nádegas brasilianas mexerem com a graça que já conhecemos. "Here I Am" é a representante do primeiro cenário, enquanto "A Day's Work" se encarrega da segunda tarefa.

E é inegável o quanto essa confluência de ritmos soa bem. Quando instrumentos mais brasileiros ganham mais proeminência, isso fica ainda mais evidente. "American Nightmare", com uma percussão quebrada e vocais brasileiros no refrão, fecha o disco perfeitamente; o violão picotado e os metais de "Eighteen to Twenty-One" são trabalhados de tal forma que parece que os gringos sempre samplearam nossa música. Mas é em "Mega" que essa fusão atinge o ápice: com uma flauta sacanamente loopada, percussão discreta e um refrão que canta "nega" mas é manipulado para soar como o título da canção, esta faixa é, de longe, o maior destaque do álbum.

Para rimar sobre estas batidas "tropicais", BK-One também faz uma mistura: ao lado de seus parceiros Rhymesayers Brother Ali, Slug, Blueprint e P.O.S., veteranos consagrados como Raekwon, Black Thought e Scarface. Na verdade, a grande estrela do álbum são os beats, e, mesmo com um elenco estelar de emcees, a verdade é que nenhum tem uma atuação de roubar a cena: eles são apenas coadjuvantes. Ainda assim, é legal ver algumas parcerias inesperadas, como Brother Ali e Scarface em "American Nigthmare" e duas hierarquias diferentes dentro do Wu, Raekwon e I Self Divine, em "The True & Living". Mas também é recomendável destacar as performances solo de Black Thought em "Philly Boy" e da galera do Haiku D'Etat em "Mega". Negativamente, deve-se ressaltar que colocar um beat brasileiro para uma mulher cantar é indiretamente exigir que a pobre infeliz mostre a mesma graça das cantoras tupiniquins, e nisso Aby Wolf falha miseravelmente.

"Rádio do Canibal" encerra seus trabalhos com um valor que deve crescer exponencialmente nos próximos anos, graças a sua originalidade. É possível que daqui a dez anos as fontes de samples estejam cada vez mais escassas, e os gringos voltem-se definitivamente para outros países. E o Brasil vai ser um dos mais procurados, certamente. Enquanto isso, este álbum serve também como aviso para os beatmakers nacionais: vamos valorizar nossa música e, com ela, criar uma identidade para o nosso rap. Não que seja errado samplear os ótimos soul, jazz e funk dos EUA, mas se a busca é sempre por coisas novas, o ouro está bem na nossa frente. E olha que os caras nem descobriram direito o baião, o forró, o maracatu, o samba-jazz...

BK-One - Rádio do Canibal
1 Ivan Tiririca (Intro)
2 Gitititt Featuring Slug & Brother Ali
3 Mega Featuring Aceyalone, Myka 9 & Abstract Rude
4 Caetano Veloso (Interlude)
5 The True & Living Featuring Raekwon & I Self Devine
6 Here I Am feat. Phonte, Brother Ali, The Grouch
7 Tema do Canibal feat. The Hypnotic Brass Ensemble
8 Ivan Tiririca (Interlude)
9 Philly Boy Featuring Black Thought
10 Blood Drive Featuring Slug
11 A Day's Work Featuring P.O.S.
12 Face It Featuring Toki Wright
13 Love Like That Featuring Aby Wolf
14 Hyldon (Interlude)
15 Blue Balls Featuring Blueprint
16 Eighteen To Twenty-One Featuring Murs
17 Call To Arms Featuring I Self Devine
18 American Nightmare Featuring Brother Ali Scarface
19 Tom Zé (Outro)

Vídeo da faixa "Tema do Canibal":


Entrevista na qual BK-One explica o conceito do disco: